
Uma viagem começa antes de colocar o carro na estrada Imagine uma família planejando uma viagem.
O destino está definido, o caminho foi escolhido e existe uma previsão de horário para chegar. Isso, porém, não é suficiente. Durante o percurso, é preciso verificar se o veículo está em condições, acompanhar a rota, observar os imprevistos e corrigir o caminho quando necessário. Afinal, ter um destino definido não garante que a família chegará até ele.
Essa comparação ajuda a compreender um dos principais desafios relacionados ao Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito, o PNATRANS.
O Brasil estabeleceu uma meta: reduzir, até 2030, em pelo menos 50% o índice de mortes no trânsito por 100 mil habitantes, tomando como referência o índice apurado em 2020. Para isso, existe um plano nacional com ações voltadas à segurança viária e à redução de mortes e lesões no trânsito.
Mas, assim como acontece em uma viagem, definir o destino é apenas o começo.
O que o Acórdão 1799/2026 do TCU analisou?
O Acórdão 1799/2026 TCU PNATRANS é resultado de uma auditoria operacional realizada pelo Tribunal de Contas da União para avaliar a qualidade da formulação, da implementação e do alcance das metas e objetivos do PNATRANS.
A análise identificou limitações relacionadas ao desenho do plano, à coordenação entre os envolvidos, ao monitoramento, à orientação para resultados e à rastreabilidade dos recursos relacionados à segurança viária.
Em termos simples, a auditoria colocou em evidência uma questão essencial: não basta ter um plano para reduzir as mortes no trânsito. É preciso saber se o caminho definido está realmente conduzindo aos resultados esperados.
Fazer uma ação não é o mesmo que produzir um resultado
Uma campanha pode ser realizada. Uma fiscalização pode ser executada. Uma capacitação pode ser oferecida. Uma obra pode ser concluída. Tudo isso pode ser importante.
Mas a realização de uma atividade não demonstra, por si só, que o objetivo final foi alcançado.
A pergunta seguinte precisa ser feita: qual foi o resultado? Uma ação educativa contribuiu para modificar comportamentos? ,
Uma medida de fiscalização ajudou a reduzir determinado fator de risco? Uma intervenção em uma via tornou aquele local mais seguro?
Essa diferença é fundamental para qualquer política pública de trânsito. Fazer algo demonstra que uma atividade foi realizada. Avaliar resultados permite compreender se essa atividade produziu o efeito esperado.
No caso do PNATRANS, o objetivo final é reduzir mortes e lesões no trânsito. Por isso, o acompanhamento não pode se limitar à quantidade de ações realizadas. É necessário compreender a relação entre as ações implementadas e os resultados observados.
O próprio TCU determinou a revisão e a estruturação do modelo de monitoramento do plano, incluindo a vinculação entre produtos e metas e a adoção de metodologia capaz de relacionar produtos implementados aos resultados observados.
Por que coordenação e monitoramento fazem diferença?
A segurança viária depende da atuação de diferentes órgãos, entidades e setores. Isso torna a coordenação essencial.
Voltando à viagem da família, não basta que cada pessoa tenha uma tarefa se ninguém estiver acompanhando o percurso como um todo. Alguém precisa saber qual é o destino, qual rota está sendo seguida, se existem problemas no caminho e quando é necessário mudar a direção.
Em uma política nacional de redução de mortes no trânsito, a lógica é semelhante. É necessário definir responsabilidades, organizar informações, acompanhar as ações e avaliar se os resultados estão se aproximando dos objetivos estabelecidos.
Quando esse acompanhamento é insuficiente, torna-se mais difícil identificar o que está funcionando, o que precisa ser aprimorado e onde os esforços devem ser concentrados.
Por isso, entre as medidas determinadas pelo TCU estão o aprimoramento da gestão de riscos, a padronização nacional de dados sobre sinistros de trânsito e a identificação dos programas e recursos orçamentários relacionados à segurança viária.
O desafio de transformar metas em vidas preservadas
O Acórdão 1799/2026 TCU PNATRANS não significa que o Brasil não tenha uma política nacional voltada à redução de mortes e lesões no trânsito. O que a auditoria evidencia são desafios importantes para transformar planejamento, ações e recursos em resultados concretos.
A meta de redução de mortes no trânsito até 2030 exige mais do que um objetivo registrado em um documento. É necessário acompanhar o percurso e corrigir a rota quando os resultados não aparecem como esperado.
Assim como uma família não espera chegar ao destino para descobrir que passou horas seguindo pelo caminho errado, uma política pública não deveria esperar o final do período para descobrir que as ações realizadas não foram suficientes.
O debate sobre o PNATRANS é, portanto, também um debate sobre a capacidade de transformar planejamento em resultados.
Porque, por trás de cada indicador de mortes no trânsito no Brasil, existem pessoas, famílias e histórias que não podem ser reduzidas a números.
No fim, o objetivo de uma política de redução de mortes no trânsito não é simplesmente cumprir uma meta.
É preservar vidas.
Autor: Lucio Machado – Especialista de Trânsito IbacBrasil


